Poder e Vingança
de Jon Skovron
Primeira leitura deste autor, primeiro mergulho neste Império das Tormentas. Não é o melhor livro de fantasia que já li, mas pode-se dizer que gostei. Por algum motivo, espadas, piratas, ladrões e linguagem brejeira seduzem-me.
Avante, o trabalho de tradução não dever ter sido nada fácil. Até o próprio título traduzido à letra não faria grande sentido. Pelo que, antes de mais, creio que fica bem aplaudir o trabalho de tradução. Tal como se aplaude o trabalho coriscante da capa muito chamativa.
Ademais, e através de um ritmo por vezes demasiado vertiginoso (a infância dos personagens principais demora cerca de quatro breves capítulos… ), a história apresenta-nos duas personagens: Ruivo (um jovem ladrão de rua) e Esperança (uma jovem guerreira fenomenal). Movendo-se à volta da sobrevivência do primeiro e dos desejos de vingança da segunda, o enredo vai andando muito certinho, muitas vezes com cada capítulo assemelhando-se a um episódio único com interesse para o resto da história. Sofre, porém, com o facto de tudo acontecer muito depressa ao estilo de produtos mais despachados de Hollywood (há quem goste assim…). Há sempre muita acção, muita tensão e muitas soluções rápidas (normalmente resolvidas à base da lâmina).
Sem descurar um rápido desenvolvimento das personagens secundárias, o Autor investiu a maior parte do seu tempo nos dois protagonistas, especialmente nos elos criados entre eles. E neste aprofundar (algumas vezes excessivo para um primeiro livro de uma trilogia) somos logo confrontados com algumas mensagens importantes como o papel da mulher na sociedade ou a falta de reconhecimento dos méritos por parte dos nossos pares. Muito certinhas estas duas personagens em termos de história, propósitos e medos.
Quanto à escrita, tenho de destacar a linguagem muito própria criada pelo Autor (“meu pintas” para “meu sócio”, “tombos de rata” e “pingos de piça” para inúteis, “encher o porão” para encher o estômago, “encharcado” para apaixonado e mais “cenouras e tomates”… ). Ao primeiro vislumbre parece um apanhado de vulgaridades com umas rápidas pinceladas estilísticas, mas depois de nos habituarmos ajuda bastante à imersão de que tanto gostam os fãs de fantástico. Enquanto habitante dos subúrbios citadinos, senti-me como me sinto quando vou ao interior e encontro um português menos refinado, mas cheio de honestidade e lirismos inconscientes. Tal arrancou-me alguns sorrisos sinceros. Por outro lado, há a realçar o facto de um Autor de fantasia não se socorrer de palavras inventadas (drakaris, rasengan…) para nos ambientar ao seu universo narrativo. É um ponto muito forte e espelha bem a técnica deste Autor. Com uma simplicidade cheia de palavras menos bonitas, estabelece um lugar bastante verossímil na nossa imaginação.
Concluido, e ainda que o ritmo despachado não me agrade lá muito, tenho a confessar que já me encontro a ler o segundo livro desta trilogia. Afinal de contas, espadas, facas, ladrões, piratas e mágicos? O que há de melhor num livro de fantasia senão isto?
