O Talentoso Mr. Ripley
de Patricia Highsmith
Tendo por base a (re)descoberta de uma mestra da criação de suspense, joguei-me ao primeiro livro da sua personagem mais conhecida: Tom Ripley. E, dentro de uma capa subtil e fenomenal (bravo Relógio D’Água), descobri um CLÁSSICO quando pensava estar apenas perante mais um bom thriller americano.
O enredo criado pela prosa precisa e bem temperada desta Autora tem por base as vivências duma vida intrujona, e todas as peripécias relativas à mesma realidade. É uma história onde há crime, mentiras e uma humanidade negra e cínica. Mais não me atrevo a dizer quanto ao enredo.
Por outro lado, Tom Ripley, o protagonista, encontra-se magistralmente criado e cheio de várias camadas; algumas das quais desprezíveis, como a sua pulsão primária de ter uma boa vida sem olhar a meios para conquistar tal desiderato. Aliás, o desgraçado talentoso é mesmo um sociopata, nenhum leitor se atreverá a dizer que Tom Ripley é um mocinho ou uma vítima (disso ele não tem nada). Porém, há certos aspectos do mesmo com os quais nos conseguimos relacionar: os corriqueiros desejos de segurança financeira, o sentimento de injustiça dos desfavorecidos face aos favorecidos, o desprezo por alguns filhinhos de boas famílias ou os desejos de conhecer o mundo em viagens intermináveis. Isto leva a que na realidade nos preocupemos com o mesmo ao longo de todo o livro. Ainda que não o apoiemos, percebemos o mesmo. É o ponto mais forte da obra.
Os outros personagens, os secundários, não me agradaram tanto como Ripley — talvez por padecerem de alguma falta de fibra imaginativa. Creio que aqui a Autora pecou um pouco (talvez propositadamente), especialmente no que diz respeito à acefalia inexistente da polícia. Pela minha experiência profissional, quando um polícia/detective fareja algo de errado encontra sempre o que de verdade se encontra errado, a não ser que o trilho leve a nenhures (algo que não me parece de todo verosímil nesta história).
Adiante, gostei também dos espaços escolhidos pela Autora e da forma como esta os trabalhou. Sem longos e densos parágrafos descritivos, há um subtexto perfeito relacionado com cada um destes lugares. Representam a fase emocional do protagonista em cada momento do livro e tornam sempre mais fácil a verdadeira percepção do estado de espírito de Ripley. A título de exemplo, numa Nova Iorque cinzenta e suja Ripley leva uma vida tristonha, com algum nojo até dos próprios amigos. Na soalheira Mongibello, um relaxado Ripley goza o melhor da vida. Na agitada e imperial Roma, Tom atarefa-se com as suas manias de grandeza. E em Veneza, Ripley vê a sua vida a afundar-se.
O ritmo é perfeito, delicioso mesmo. Não houve um capítulo capaz de me dar sono. Havia sempre uma situação ou um pensamento capaz de levar a história para a frente ou de me divertir. Vale por dizer que li as duzentas e sessenta e quatro páginas do livro numas meras cinco noites. Um ápice, tendo em conta a minha vida.
Finalizando, não é um livro perfeito, mas é sem dúvida muito bom. Agradou-me bastante e motivou-me a ler as sequelas. Que mais posso dizer senão aconselhar a todos este livro?
