Daily Archives: Junho 11, 2025

As Cicatrizes do Tempo

by Saída de Emergência

As Cicatrizes do Tempo

de Nuno Carvalho

No seguimento da aposta da editora Saída de Emergência em novos autores portugueses do género fantástico, tratei de adquirir As Cicatrizes do Tempo seduzido por uma capa espetacular. Um guerreiro solitário, vestes carmins heroicas, uma espada empunhada e, por fim, um dragão feito de nuvens. O que há para não gostar nesta proposta?

Todavia, e ainda que os elementos da capa se conectem com a narrativa, o enredo é mais melodramático e pausado do que propriamente uma fantasia cheia de acção nonstop. As espadas estão lá, são usadas, tal como o dragão. Mas a obra foca-se muito mais na construção dramática da relação entre os dois protagonistas da história do que propriamente em providenciar-nos momentos de acção ou maravilhar-nos com elementos fantásticos…

Receando expor demasiado a história ao falar dos personagens, creio que os mesmos foram inicialmente bem construídos, com clara vantagem para os monólogos interiores da protagonista feminina. Contudo, Alun e Aelwen têm a dor em comum, mas e o resto?

Depois, o final é tragicamente apressado. Precisava de uma execução mais pensada do que aquela que teve para nos arrancar qualquer coisa.

Quanto ao mundo propriamente dito onde se passa a história, parece-me que o Autor criou o seu lore, mas temeu utilizá-lo em demasia. Talvez esteja a guardá-lo para uma segunda entrada no seu mundo…

Por fim, a fraca revisão e a fraca edição. E ponham mesmo fraco nisso porque ambos os trabalhos são fraquíssimos.!

Quanto à revisão, antes de mais, devo dizer que é normal, no meio de milhares de palavras e centenas de edições, os Autores não se aperceberem de alguns dos seus erros. Tal como é normal, no meio de centenas de revisões, o revisor deixar passar pontualmente uma gralha. Mas é inadmissível o trabalho apresentado neste caso. Contei pontualmente as gralhas ortográficas, mas existem inúmeras gralhas de sintaxe que só existem certamente por negligência total de quem revê. Portanto, aconselho o autor a pagar do próprio bolso um novo trabalho de revisão.

Quanto ao trabalho de edição, um dos papéis dos editores é puxarem pelos escritores que publicam, nomeadamente exigindo-lhes mais criatividade na prosa de modo a evitar ao máximo lugares-comuns, repetidos até à exaustão por outros autores. Isto é particularmente importante para jovens escritores.

A título de exemplo, o que melhor resulta para mim na questão de uma relação amorosa é a forma como os autores criam com originalidade a ligação entre as duas partes de um casal. Não basta juntar duas personagens bonitas numa cena. É preciso dar-lhes raízes paralelas, uma linguagem entrelaçada, divergências, convergências, arrufos, reconciliações e, finalmente, algo simbólico entre eles.

Veja-se os seguintes casos: Romeu e Julieta têm o amor proibido a prometer-lhes o fim trágico, Odisseu e Penélope exploram temas como a lealdade na distância e têm como símbolos o desfiar do trabalho diário da espoa e o teste final de colocar a corda no arco, Kvothe e Denna têm a música e o mistério a uni-los e a separá-los constantemente, Han Solo e Leia Organa têm a ideia bem executada de “os opostos atraem-se”.


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