Moby Dick
de Herman Melville
Sem a paciência para ler esta obra de uma vez só, fui lendo a espaços os breves (mas ainda assim maçudos) capítulos de Moby Dick enquanto ia lendo outras obras. Portanto, e para dizer a verdade, só quando entrei nas últimas cem páginas é que dei por mim finalmente investido na história.
Isto porque o Autor (quiçá pago à palavra) exagera quanto à morfologia, história, filosofia e simbolismo da baleia. Ficamos a conhecer o leviatã mítico de Jonas; bem como a perceber da pele, da barbatana, da ossatura e do espiráculo e do espermacete e de tudo quanto mais compõe o corpo dos cetáceos. Um autêntico tratado de cetologia…
Por outro lado, o enredo é simples e conhecido: a tripulação do Pequod liderada pelo determinado Ahab (Acab em português…) procura caçar a monstruosa e assassina baleia a quem chamam Moby Dick. Esta simplicidade, porém, entrelaça-se com alguns episódios a bordo do navio e com alguns temas ainda hoje actuais.
Destaco a glorificação da caça à baleia (algo com que não me identifico minimamente) como metáfora da luta infrutífera do homem contra a natureza. O próprio Ahab acaba por representar o mais desafiador dos homens que, mesmo perante sucessivas derrotas, não desiste de desafiar o trágico destino que o espera. Sob outro ponto de vista (que até acho pouco explorado), o final imposto por Moby Dick ao Pequod representa igualmente o castigo expectável que aguarda todos quanto se dedicam à vingança e/ou a combater a natureza.
Quanto a personagens, todo o destaque vai, conforme até aqui é possível perceber, para Ahab. O resto do tempo temos algumas peripécias vividas pelo próprio narrador e por outras personagens secundárias, mas com muito pouco de desenvolvimento ao longo das mais de seiscentas páginas do livro. É quase como se apenas existissem duas personagens: Ahab e a Tripulação do Pequod.
Há igualmente uma boa escrita, muito náutica e precisa, tal como um tom carregado de ironia que serve para atenuar a tragédia épica do final. Os monólogos gigantes e fastidiosos quebram, no entanto, a genialidade de algumas tiradas.
Concluindo, e talvez pela arrogância de já ter lido bastantes clássicos, e bem melhores, não considero Moby Dick uma obra-prima. Tem um tema atemporal que o transforma num clássico, mas creio que enquanto obra-prima (ao nível de Dom Quixote, O Conde de Monte Cristo, Dom Casmurro, Huckleberry Finn, Oliver Twist…) só o é certamente para os critérios americanos e para os ceguidistas da cultura americana. Fica a heresia.

20 de Abril, 2021 at 11:42 am
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