Sharp Objects
de Marti Noxon
A série corre imensos riscos narrativos, especialmente com um primeiro episódio muito pouco interessante até em termos de gancho. Todavia, este ritmo slowburn contribui imenso para o desenvolvimento de todos os personagens e para a ligação empática entre a protagonista e os espectadores. Os três últimos episódios puxam por toda a nossa atenção e culminam num epílogo tremendo.
Não sendo um mero policial ou uma novela sobre uma investigação jornalística, Sharp Objects debruça-se sobre ligações familiares, traumas e distúrbios psicológicos de todas as índoles. O mais visceral é aquele que a protagonista carrega.
Em termos de personagens, o guião dá imenso material a todos os actores para desenvolverem a psicologia e o comportamento físico das suas personagens. A título de exemplo, Amy Adams mostra porque já tinha sido escolhida para interpretar uma das mais famosas repórteres do mundo e (ao contrário do que aconteceu com a sua personagem Lois Lane no DCU) a nossa protagonista brilha nesse campo de investigação, procurando detalhes emocionais e cenas visuais para contar histórias (ao invés de se dedicar a descobrir a mera identidade do assassino das jovens). Ademais, a actriz acrescenta com a sua arte uma profunda e cortante amargura em termos de drama emocional.
Novo exemplo, este já numa base mais secundária, é igualmente fascinante a forma como a personagem do padrasto da protagonista nos é apresentada ao longo de toda a história.
Algo que achei bastante interessante na história prende-se com a escolha tremendamente arriscada de transformar o papel dos protagonistas masculinos em papéis que por norma cabem no cinema às mulheres. Em vez do homem rico que tem aventuras extraconjugais, temos uma raposa abastada que tem aventuras extraconjugais ao mesmo tempo que manipula e se serve do poder desse amante. Em vez da mulher traída, temos homens traídos. Em vez do macho herói que fornicou com uma data de mulheres, temos uma “heroína macha” que se serviu de uma data de mocinhos numa orgia. Em vez de um marido forte e ditatorial, temos um marido assustado e submisso ao comando da mulher…
Vale por dizer que a Autora (e aqui menciono Gillian Flynn, autora do livro com o mesmo nome, ao invés do realizador da série) escolheu mostrar a mulher como dona das suas próprias escolhas, empoderando-as e assustando-nos com esse tremendo poder oculto no corpo aparentemente mais frágil das mulheres. Tudo sem reduzir a participação dos homens na vida delas. Fascinante.
Aconselho a pessoas que se interessam pelos recantos mais sombrios da humanidade e pelos recantos mais sujos de histórias de família disfuncionais.

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