DUNA — Parte Um
de Dennis Villeneuve
Pela riqueza de personagens e detalhes espaço-temporais, considero que o formato de séries e mini-séries, especialmente nesta era de streaming, é a mais adequada a qualquer obra literária de fantasia e ficção científica. Assim, e após ter lido o livro de Frank Herbert, achei que dificilmente alguém poderia adaptar a história de Duna ao grande ecrã com facilidade. Em parte, tinha razão. Noutra parte enganei-me redondamente.
O realizador do filme, percebendo e aproveitando-se do facto de Duna ter dois momentos narrativos bem distintos no seu livro, aproveitou-se de uma das metades narrativas, adicionou-lhe pequenos episódios enriquecedores (constantes na narrativa, mas pouco explícitos ou em discurso indirecto), aprofundou a trama e o drama com algum investimento nas cenas de batalha e ainda o reforçou com uma soberba banda sonora do mestre Hans Zimmer.
A imagética do filme, tanto nas cenas de Arrakis como nas cenas passadas “noutros mundos”, nada fica a dever ao livro. É aliás tão grandiosa como imaginado pelo próprio Frank Herbert. As cenas dos vermes de areia são mesmo assombrosas.
Em termos de personagens, o elenco de luxo faz valer cada cêntimo, à excepção da jovem Zendaya. Em cada uma das cenas em que aparecem, por poucos ou muitos minutos que tenham, todos os actores veteranos dão o seu cunho às personagens que interpretam. Jason Momoa dá bastante irreverência a Duncan Idaho, Josh Brolin dá um pouco do seu mau-feitio a Gurney Halleck, Javier Bardem dá alguma extravagância e um sotaque rebelde a Stilgar, Chen Chang dá a fragilidade subtil ao Dr. Yueh, Dave Bautista não desilude como o Animal Raban e David Dastmalchian parece talhado para brilhar em pequeno papeis como o é o de Piter de Vries ao lado do estranho e arrepiante Barão Harkonnen (Stellan Skarsgård, o que te fizeram?).
Com mais tempo de ecrã, Rebecca Ferguson (talhada perfeitamente para ser uma mãe leoa, uma frágil concubina e uma Bene Gesserit algo rebelde) e Oscar Isaac (no papel do nobre e paternal Leto Atreides) conseguem desenvolver entre si a química necessária ao de um casal trágico.
O destaque maior, contudo, vai para Timothée Chalamet, que interpreta o protagonista Paul Atreides. No livro, achei esta personagem algo robotizada e pouco relacionável. A interpretação do jovem actor, no entanto, dá-lhe um cunho mais humano. Ao contrário do que consta no livro, ele falha. Mesmo com todo o seu treino, o Paul Atreides do filme ainda falha ao usar a Voz e revela alguma ingenuidade e um carácter mais emotivo e menos racional. Dirão os fanáticos que desvirtua a personalidade mentat do Paul do livro; mas é um desvio bom. Mais humano, mais relacionável. Isto é mais do uma regra de todos os criadores de histórias, é um dever.
A única coisa onde creio que o filme peca é no pouco desenvolvimento da mensagem ecológica. Mesmo sendo apenas a primeira parte, creio que a cena da sala verde de Dama Jéssica, e alguma revolta com o desperdício de água, fica a fazer bastante falta ao filme. Todavia, como é dito no filme, isto ainda é só o começo e quase nada se explorou dos fremen.
Que venha rápido o segundo filme. Já não me sentia assim desde que vi O Senhor dos Anéis: A Irmandade do Anel de Peter Jackson.
