Essas Palavras…

Essas palavras sem compromisso
Que te fogem da boca sem serviço
E se cravam como espinhos de ouriço
Nesta carne de homem quebradiço.

Essas palavras com que mal me chamas
A esses lábios e que saltam como escamas
E me descamam dos desejos e das camas
Ferem mais do que aquilo que tu me amas.

Essas palavras, essas palavras cruzadas
Que se escondem de mim desajuizadas,
Nunca mudas, mas sempre encapuzadas.

Essas palavras ditas: turvas e tortas,
E vindas de sítios escuros sem portas,
Deambulam até mim murchas, quase mortas.

 


Roseira Brava

Uma roseira brava, outrora cheia de espinhos, viçosos e aguçados,foi ficando uma rosa amestrada, complacente com a tesoura que lhe podava o carácter e a alma; tudo porque queria de si mesma apenas o perfume aveludado das suas pétalas vermelhas.

Como uma desconhecida que se desconhece a si mesma, foi-se desapegando das raízes como se o leite que o ventre da mãe-terra lhe deu não fosse a seiva que lhe empurrou o verdíneo caule para cima, para crescer, ainda que torto.

Sempre a troco do melhor lugar ao sol, foi ignorando a roseira a falta de espinhos e o cair das suas próprias folhas, o cair das unhas e dos pulmões, até que em vez da elegante tesoura de podar veio a última serra findando assim a sua pobre história.


BARROCO TROPICAL

Barroco Tropical
de José Eduardo Agualusa

 

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by Dom Quixote

Já tinha lido um outro livro deste autor angolano, A Vida no Céu, e tinha gostado da escrita leve, cómica e com aquele toque de português dos trópicos. Foi isso que me motivou a ler este último Barroco Tropical.

Mas, ao invés da magia e fantasia que encontrei no primeiro, encontrei neste livro uma crua perspectiva daquilo que é e será a futura Luanda… e alguma desilusão.

O livro até tem grandes oxímoros, grande frases, grandes imagens e grandes momentos de reflexão, mas falta-lhe algo que eu aprecio: um fio condutor nítido. A mulher que caiu do céu e o mistério por trás da sua queda não puxa em demasia pela história (O protagonista descobre o que aconteceu à mulher simplesmente porque sim e não porque andasse à procura de o descobrir…) e depois há a história do Anjo Negro. Ainda que reconheça importância desta demanda, em momento algum senti verdadeiramente o protagonista motivado a perseguir esse tal Anjo Negro; pelo que também este fio se quebrou em alguns momentos. No final, ficamos apenas com ideia que o Autor queria apenas um par de olhos a observar o que à sua volta se passava.

A existência de ganchos narrativos é escassa. Talvez o Autor não tenha querido obrigado os seus leitores a devorar o livro, talvez tenha apenas querido que estes lessem cada capítulo com calma e com a paciência que se exige a um sociólogo ao observar uma determinada parte da existência, como aquela que o Autor representa no livro.

O protagonista principal é um homem cheio de falhas, calcinado pela dor da perda e preso a um labirinto de culpa. Já quanto a Kianda, a protagonista feminina da estória, ainda que seja uma personagem tremendamente importante para o desenlace, não havia necessidade de lhe atribuir o papel de narradora. O seu elucidário foi algo que pouco acrescentou à estória e que por vezes quebrou o ritmo da narrativa. Acho que a sua perspectiva podia ter sido condensado de outra forma, talvez em dois capítulos (ou talvez não, não sei…)

Quanto a pontos fortes: Termiteira, Luanda e Angola. Tal como outros artistas angolanos deste tempo, há em Agualusa a necessidade de mostrar algo do seu país pobremente roubado pelas ricas elites, algo da ruína  humana que permanece nas ruas desde o fim da guerra e algo das antigas tradições perdidas, quer com o colonialismo da língua portuguesa quer com as orientações políticas do governo.

No final de contas, é um livro bom para quem quer conhecer um pouco da alma angolana, mas não é um daqueles livros que nos motive a virar a página e nos convide a devorar o próximo capítulo.


Vinte Anos de Harry Potter

Ainda que longe de ser uma das minhas séries preferidas de livros, a verdade é que a magia de J.K. Rowling me encantou durante os breves anos da minha adolescência. A febre era tal que consegui ler a Ordem da Fénix (o maior livro da saga) nuns rápidos e necessários três dias e meio (talvez quatro, vá…).

Quando me perguntam o que acho da saga de Harry Potter ainda hoje digo o seguinte: bons prólogos, alguns demasiados sombrios para o seu público alvo, um vilão carismático e sete livros cheios de problemas atrás de problemas de três adolescentes mágicos que, num verdadeiro caminho sinuoso, se tornam adultos no final do sétimo livro. Claro que haverá mais por dizer, bastante mais…

Contudo, hoje quero mesmo é prestar uma pequena homenagem a uma das poucas sagas de livros que, ainda que tenha os seus defeitos, encantou várias gerações e nos devolveu a magia das letras e a fantasia da nossa imaginação ao glorioso panteão da Grande Literatura.

E no que a mim me diz respeito cumpre também referir, com alguma nostalgia à mistura, que conheci os corredores da minha própria escola enquanto ia também descobrindo os corredores Hogwarts, joguei futebol ao mesmo tempo que ia dando conta do que era o quidditch e experimentei o meu primeiro beijo no mesmo ano que Harry beijou Cho Chang.

Talvez haja ainda mais que vos possa contar, mas perderia a magia…

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by Bloomsbury Publishing


Se eu fosse seu…

Se eu fosse seu teria de limpar
O quarto, fazer a cama e arrumar
Um trabalho só para ficares feliz.

Se eu fosse seu não seria poeta
Pois teria que poupar as palavras
Escolhendo entre moedas e verbos.

Se eu fosse seu não seria livre
Nem teria latejando a liberdade
Desta jovem e sexual idade.

Se eu fosse seu seria um pigteu (*)
Se eu fosse seu nunca seria eu
E se eu fosse seu nunca seria meu.

 

 

 

(*) Inicialmente era para colocar “pigmeu”, mas enganei-me, saiu erro e, como acontece muitas vezes a quem escreve, achei que se adequava melhor uma espécie de neologismo chamada “pigteu“; algo que não vem no dicionário mas que fica entre o conceito fofinho de “pigmeu” e um conceito emporcalhado de “porco teu”. Se alguém achar estúpido, não peço desculpa…

 


Nomes Enlameados

Infelizmente, vivo num país, talvez num mundo, em que o verbo em destaque é «corromper» e os adjectivos preferidos são o «corrupto», o «corruptor» ou o «corrompido». Não se chama incompetente a quem o será, não se chama ignorante a quem o foi e nem tampouco se chama anormal a quem o é. A palavra que importa reter é sempre a mesma: corrupção.

A todas estas pessoas que jogam para a lama o nome dos outros, um pedido: sejam um pouco mais originais.

Já todos sabemos que a corrupção passiva existe quanto o funcionário que por si, ou por interposta pessoa, com o seu consentimento ou ratificação, solicitar ou aceitar, para si ou para terceiro, vantagem patrimonial ou não patrimonial, ou a sua promessa, para a prática de um qualquer acto ou omissão contrários aos deveres do cargo, ainda que anteriores àquela solicitação ou aceitação.

Igualmente, já todos sabemos que a corrupção activa existe quando quem, por si ou por interposta pessoa, com o seu consentimento ou ratificação, der ou prometer a funcionário, ou a terceiro por indicação ou com conhecimento daquele, vantagem patrimonial ou não patrimonial para a prática de um qualquer acto ou omissão contrários aos deveres do cargo, ainda que anteriores àquela solicitação ou aceitação.

(Cfr. Artigo 373º e 374º do Código Penal Português)

Existem mais crimes no nosso regime penal!

Dos artigos 131º ao 389º é sempre a abrir!

Já estamos todos fartos de andar a chamar corruptos a uns e a outros…

 


Homens e Mulheres…

Penso que este homem seja feito
De mais roupas do que de carnes,
De mais rimas do que de palavras.

Lógico que palavras machas dizem
Aquilo que diz qualquer dicionário
Mas também dizem menos, muito menos!

Já a mulher não precisa de palavras,
Tem os olhos e os lábios e os ombros,
Tudo a falar num silêncio mui calado.

Sem frases, sem verbos e sem desculpas
Para a preguiça de não realizar e fazer,
A mulher fá-lo: constrói esse homem!