Febres Passageiras

A comunicação social, as redes sociais, as políticas de comunicação de instituições públicas e privadas muito têm contribuído para as explosões febris, diarreias verbais e gestos revoltados que por vezes nos tomam.

Bandido! Incompetente! Burro! Corrupto!

Tudo sentenças sumaríssimas, tudo saques de gatilho rápido e, como é óbvio, tudo injusto.

Hoje estava a ver o meu clube jogar, em certo momento o clube adversário marcou um golo e eu chamei os nomes todos aos meus jogadores até findar a primeira parte e ainda durante o intervalo. Mais tarde, a minha equipa empatou e venceu por quatro golos de diferença.

Findo o encontro, volto a olhar para trás, recordo a primeira parte e percebo que fui algo precipitado e injusto. Estava temporariamente febril, atacado por uma imprópria linguagem e até os meus amigos assustei com os meus modos, admito.

Dir-me-ão que é futebol, que acontece; mas eu não gosto de desculpas.

ERREI!

Preciso de ser mais forte, mais ponderado. Preciso aprender a engolir mais um pouco deste coração tonto que me quer saltar pela boca e obrigar esta cabeça serena a devolvê-lo ao seu lugar, no centro do peito, levemente descaído para a esquerda.

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O Desolado

Segue o Desolado seu desfado
E não se ouve o passo arrastado,
Só o esbafo do cavalo cansado
E o abutre faminto e assustado.

Já a pé, rompe o céu e a bota,
Molha-se a meia até ficar rota
E das bolhas rompe uma gota
Triste pelo avistar da derrota.

Ruíram e arderam todas as obras,
Já nem no lixo restam as sobras
E só o perseguem agora as cobras.

Diz Desolado, a que te agarras
Tão derrotado e com as garras
Gastas? A que tanto te amarras?


Luz Eterna…

E vindo o Fim do Mundo
Em fogo, gelo e destroços
Mergulhados neste fundo
Do abismo cheio de ossos,

O amor, sincero e profundo,
Resistiu, aliando esforços,
Floriu, mesmo sujo e imundo,
E gerou frutos como reforços.

Ah! que luz eterna, brilhante
E das estrelas mui semelhante
Ligando todo o perdido distante.

Ah! que luz tão quente e forte
Desafiando os filhos do desnorte
E amparando-os até à morte!


A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado

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by Bertrand

A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado

de Gonçalo M. Tavares

Sendo um confesso apreciador do Autor e um confesso apreciador de Fantástico, o novo universo Mitologias criou-me imediatamente curiosidade. Mais um autor português de renome a mergulhar no ilimitado mundo do Fantástico? FIXE!!! MUITO FIXE!!!

Assim, após uma longa espera, lá abri o referido livro.

Contudo, fechado o livro, surge aquela velha máxima: há livros melhores que outros. E no caso específico deste Autor a verdade é que o mesmo tem obras que me levam a pô-lo nos píncaros e outras em que um leve encolher de ombros diz tudo.

Ora, neste A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado a ideia do Autor é simplesmente contar histórias sem ligar ao fio temporal das mesmas histórias. Se começarmos a ler a história de trás para a frente, do meio para os lados ou se saltitarmos e voltarmos atrás, o resultado é mesmo. E, ás tantas, o resultado é algo como uma antologia de contos e nalguns destes contos (capítulos) coincidem de vez em quando personagens doutros contos (capítulos).

Personagens estas que, tirando o Homem-do-Mau-Olhado e o seu último capítulo, não nos deixam saudades.

Mais, nesta obra leis como “Se tirares a cabeça a alguém ela morre.” não existem e nenhuma explicação é dada (propositadamente). Aqui, o interesse é não explicar nada, é não mostrar nada mais do que se mostra.

Acontecimentos, sem qualquer juízo valorativo, como o canibalismo, a revolução ou o julgamento são-nos apresentados em bruto, sem edição. Lá está, agora cada um que pense por si no que viu aqui acontecer e no que acha que aconteceu ao que não viu acontecer.

Penso que o Autor não se importaria de definir assim esta primeira obra: espantem-se e pensem!

No entanto, achei muito pouco. É verdade que existem momentos bem construídos, como “Onde está o amor de uma mãe pelos filhos, no corpo ou na cabeça?”; mas, regra geral, a falta de uma linha de continuidade gera-me tédio. Não gosto de antologias de contos, especialmente antologias de contos sobre a mesma história.

É demasiado ensaio e muita pouca história.

Desculpa, Gonçalo M. Tavares; continuo a gostar da tua obra, mas deste não gostei.


Crónica dos Bons Malandros

Crónica dos Bons Malandros
de
Mário Zambujal

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By Clube do Autor

Findada a leitura de mais um presente de Natal, dei por mim a querer a sequela deste livro. Bem sei que não a há, não foi escrita, mas não me importava que a malandragem continuasse.

Não sei quanto aos outros países,  mas nós, portugueses, adoramos malandros. Adoramos e cultivamos a malandragem. Se um garoto for interessado, inteligente e intelectual, tudo bom; mas se ele for traquinas, desembaraçado e levemente sacana, tanto melhor!

É o que se passa com este livro, cheio de personagens malandras quanto baste. Têm todos uma alcunha, têm todos um passado de malandragem e têm todos um plano para o futuro que desde logo se adivinha trágico.

Depois há as pérolas humorísticas do Autor. Desde a mais subtil até à mais ordinária, o próprio narrador parece divertir-se tanto quanto nós a contar a história destes bandidos.

Não me admira, portanto, que mesmo com a leveza narrativa com que conta a história (não há lugar a muitos floreados artísticos nem a densos pensamentos) o Autor nos tenha dado um livro que bem podia, e devia, ser apresentado nas escolas (mas só no 10º a 12º ano por razões óbvias…).

Era uma forma dos nossos meninos perceberem que ler é divertido. Neste caso, bastante divertido!


O Maior dos Presentes…

Olhando a árvore de natal:
Os enfeites, as luzes a piscar,
A estrela dourada e imortal
E até dos presentes a iscar,

Lembro-me muito, neste Natal,
Do teu beijo no meu mordiscar
E, mais que da tua beleza imortal,
Dos nossos mimos a namoriscar.

Depois penso: antes da cruz,
O Deus Menino chamado Jesus
Nasceu para o mundo duma Luz

Igual à nossa, dum amor entre entes
Que tornam noites frias em quentes
E cada beijo no maior dos presentes.


O Bem e o Mal

O Bem e o Mal

de Camilo Castelo Branco

Curioso acerca da obra de Camilo Castelo Branco, o primeiro escritor português a viver inteiramente da escrita (ajudado pela Sra. Dona Ferreirinha…), e tendo por casa alguns livros duma colecção incompleta, resolvi pegar nas duzentas e seis páginas d’O Bem e o Mal.

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Por conseguinte, abri o livrinho e, assim de rajada, deparou-se-me a palavra quietude.

Ora, hoje em dia a quietude de um primeiro capítulo é algo raro (e alguns dirão mesmo: é algo raro porque é chato!). Contudo, no século dezanove não havia televisão nem havia videojogos, computadores e muito menos telemóveis. Vale por dizer que os fiéis leitores daqueles tempos tinham menos entreténs e mais tempo e mais paciência para descobrir um livro do que os apressados consumidores de livros de hoje.

Adentrando na obra, vamos descobrindo um verdadeiro melodrama típico do Romantismo (movimento artístico surgido nos finais do século dezoito e boa parte do século dezanove).

Nesta senda, com algum humor e ironia à mistura, o Autor apresenta-nos um rol de personagens que nenhum escritor da actualidade se atreve a copiar. A almejada alvura de espírito, por norma destinada a uma vítima, a um mentor ou a um protagonista, é nesta obra transversal a quase todos os personagens. Com um ou outro pormenor aqui e ali que diferencia uma ou outra personagem, a verdade é que, tirando os infames vilões, todos os outros são um festim para quem gosta de zombar das chamadas personagens unidimensionais.

Há o nobre fidalgo (ainda que teimoso e com raízes preconceituosas) que abriga em sua casa um casal de irmãos órfãos (um vigário ponderado e uma virgem mui discreta) e um justo e bravo Casimiro cujo peito é atacado pela filha mais doce e santa do nobre fidalgo. Por fim, como se todas as anteriores não fossem suficientes boas de alma, há o amável lavrador Ladislau, o incansável carpinteiro, a enigmática Condessa de Azinhoso, o João pastor, Dona Brites e, certamente, outros cujo nome não invocarei mas que ficam igualmente lembrados enquanto santas almas incapazes de malevolências que se rebelam contra a infâmia da tragédia e da maldade.

Dirão os críticos consensualmente e os actuais consumidores de livros que tanta bondade enjoa, que não é real e peca por não representar a sociedade em que vivemos. Ora, presumo que o Autor sabia isso mesmo e, portanto, com alguns laivos irónicos, não deixou de confrontar as mesmas personagens com alguns problemas da sociedade daquela época; problemas, aliás, que continuam hoje por resolver como a diferenciação negativa das antigas famílias, a falta de limites da liberdade de imprensa, o valor do silêncio de um arguido, a tendência maliciosa do homem que vive em sociedade e outros que agora não desvendo. Nas mãos de um grande escritor, a unidimensionalidade é só mais uma ferramenta para criar uma grande obra.

Enfim, é uma obra de outros tempos, mas com alguns apontamentos que ainda hoje relevam.  É uma obra a ser lida e relida pelo enorme manancial de verbos e adjectivos que nela se bem primam. E, por fim, é uma obra para quem, ainda hoje, dá valor à nossa língua portuguesa.