Dia de Praia

Há o cheiro quente da areia
Que me amolece, me alheia
E me purga qualquer ideia
De me erguer, o que já rareia.

Marulhando o mar, fico ouvindo,
Calmo e néscio, o indo e vindo
Que me embala por um eco lindo:
Um eco azul oceânico e bem-vindo.

Por fim, suave, a mão companheira
Do meu lado, preguiçosa e soalheira,
Que faz de mim sua espreguiçadeira
E me abusa com sua boca beijoqueira.

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The Dark Tower – Filme

The Dark Tower

de Nikolaj Arcel

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Trocadilhando com sotaque brasileiro, um baseado é um pedaço de droga enrolada em mortalha. E este filme, baseado na obra de Stephen King, é apenas e tão só isso mesmo: um baseado de merda.

Aproveitam-se os nomes, aproveitam-se alguns números e algumas ideias, dá-se-lhes uma cor nova (como sucedeu no caso do Pistoleiro) e vamos lá começar a escrever um guião parecido com aquela treta de saga que, só por acaso, é a obra predilecta desse escritor tão pouco conhecido que é o Stephen King.

FODA-SE! Devolvam-me o meu dinheiro, por favor!

Não há um único ponto forte neste filme e até o super Matthew McConaghey se mostra sofrível e… enfim… no papel de uma personagem unidimensional.

Ahhh!!! Que diabos levam alguém como essa amostra de argumentista chamado Akiva Goldsman (vejam aqui o que já escrevi sobre ele), cujo sucesso até à data é relativo, a achar que pode mudar por completo a saga The Dark Tower?

Sinceramente, como se a história de Idris Elba vestir a pele do Pistoleiro não desse já azo a desconfianças, muda-se também a gênese do personagem? É o meu Roland, dirá Akiva… e nós dizemos: vai-te foder, Akiva!

Roland Deschain busca a Torre Negra, não busca vingança! Como é possivel inverter até o essencial das coisas neste filme baseado de merda? Nem sequer há a grande decisão do livro ou outra qualquer digna de nota. Nem sequer as cenas de pistoladas são boas…

Um amigo meu comentou em jeito de brincadeira que esta versão de The Dark Tower deve ser uma versão do outro onde e quando de Akiva Goldsman. Sinceramente, espero nunca vir a conhecer o mundo deste idiota armado em defensor da igualdade de raças… Deve ser só trevas e fogo…

Em suma, este filme é apenas uma punheta sofrível, gratuita e medíocre (acho que nunca avaliei tão pobremente  um filme); pelo que merece certamente ser esquecido o mais depressa possível. Aliás, já!

Vou voltar ao sétimo livro da saga e acabar de ler essa maravilhosa obra original de Stephen King…

PS: A sério, será que ninguém vê Game of Thrones? Isso sim é uma obra de arte baseado numa grande obra literária.

 


A minha única lei

Em sorrisos de largura amena
Minhas mãos e a sua dezena
Acarinham essa pele morena

E, sem verbos, mas com o eco
Dum silêncio inquieto, eu peco
Mais que mil ladrões num beco.

Beijo-te muito e por todo o lado
E tu, às tantas, num sonoro brado
Pedes-me alto: só mais um bocado!

Nesse momento, serei eu um rei?
Talvez sim, talvez não; não o sei,
Só sei que o amor é minha única lei.


Indiferente

Estás cega? Não vês que me sufocas com o tanto que as tuas mãos me apertam e os teus braços me seguram? Tens medo? Sim, talvez tenhas medo daquilo que não controlas e talvez teu maior medo seja mesmo o de não me poderes controlar. Contudo, desculpa-me: não aguento perder mais um segundo aqui contigo! Tudo aquilo que pensaste que eu podia ser caiu do céu e morreu na terra, tal como a primeira pessoa do plural morreu contigo e bem à tua frente!

E porquê?

Porque estou cansado de ser o que queres que eu seja! Porque estou cada vez mais descrente nisto nosso que já não é bem nosso! Porque me afoguei perdido neste mar agitado e voltei à tona boiando ainda mais perdido! E, por fim, porque não sei o que esperavas de mim ao exigires-me com tanta força para que seguisse caminhando com os teus sapatos, com as tuas botas e desfilando até dentro das tuas saias.

E o pior?

O pior é que cada passo que dava era só mais um passo errado noutra direcção, um trilho enganado ou certamente um fado equivocado e sem sentido. Errei, em ti, tantas vezes que meu erro se tornou indiferente e nessa indiferença de erros rotineiros me indiferenciei de ti até ao ponto de se me esgotar  o excessivo tanto que amava em ti. Finalmente, um pouco mais em mim, despertei ciente do que era realmente preciso: ser menos como tu, ser mais como eu.

Vou falhar?

Sim, eu sei que posso acabar falhando também. Sei que posso cair num buraco, pisar uma armadilha ou mergulhar num abismo ainda mais profundo que este. Todavia, por favor, não ignores que és apenas como eu: um alguém com outro alguém tremendamente desapontando, francamente desiludido e agradavelmente desenganado.

Estou diferente?

Não, estou apenas… indiferente!

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Mind Devour by Sebastian Eriksson


Pesares

Sinceramente, não sou daqueles enlutados momentâneos que choram no dia a morte da vedeta que nunca conheceram e a veneram para o resto da vida. Sou um tipo comedido e, ainda que respeite bastantes nomes, não venero ninguém. Recuso-me a venerar alguém…

Coisa diferente é o luto e o pesar pela morte de um dos meus artistas favoritos.

A vida foi madrasta para Chester Bennington (1976-2017) e levou-o a um último acto trágico. Alguns dirão que é preciso ser muito fraco para simplesmente perder a vontade de lutar, outros dirão que pôr fim à própria vida é o acto mais corajoso que alguém pode cometer. Sinceramente, eu não sei onde colocar-me nesta questão. Digo apenas que a vida é mesmo, por vezes, uma grande filha da puta…

Aqui chegados, resta-me apenas desejar-lhe o merecido e ansiado descanso, desejar força à sua família e resta também lamentar-me não me ter baldado a um exame qualquer para ir assistir ao concerto dos Linkin Park nas últimas vezes que eles cá estiveram em 2012 e 2014.

Como se costuma dizer, só nos arrependemos do que não fazemos…

Descansa em Paz, Chester…


A máquina de Joseph Walser

A máquina de Joseph Walser

De Gonçalo M. Tavares

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by Caminho

De volta a’O Reino de Gonçalo M. Tavares (GMT) e de volta à cidade atacada pela guerra de Um Homem: Klaus Klump, o que poderei dizer sobre este livro? Sinceramente, talvez precisasse de muitos mais adjectivos do que aqueles que o Autor usa para contar a história de um homem de tão poucas palavras como Joseph Walser, protagonista desta estória com… tão poucas palavras, mas com tanto contado!

 

A sério, a habilidade que GMT tem para contar histórias que nos emocionam sem se desperdiçar com exaustivas descrições ou capítulos cheios de mistério e acção é algo que tem de ser reconhecido; bastante aplaudido de pé talvez.

 

Fazendo o devido paralelismo entre um Um Homem: Klaus Klump e A máquina de Joseph Walser (querido e desejado pelo próprio Autor, tal como consta da breve nota introdutória da edição que li), o primeiro opta por mostrar a guerra através dos sentimentos e dos pontos de vista de várias personagens enquanto que o segundo conta a história de um homem em guerra consigo mesmo. Mesmo lá fora, nas ruas não muito distantes da sua porta, e ainda assim longínquas, onde a guerra se vai desenrolando, as verdadeiras batalhas travam-se dentro no nosso protagonista, um pilar de fraqueza e apatia indestrutíveis.

 

O nome escolhido para a obra foi A máquina de Joseph Walser, mas bem poderia ter sido “A alma de Joseph Walser” ou “O coração de Joseph Walser”. A metáfora é sublime, e perfeita. Claro que a máquina, capaz talvez de cortar, mas certamente responsável pelas funções de vibrar e sentir do protagonista, existe mesmo na história. Não é meramente uma simples máquina, mas é, isso sim, uma grande metáfora para o que se passa com Joseph Walser.

 

Por fim, ao contrário de Klaus Klump, que não ficaria na memória não fosse o caso de constar no título de uma obra de GMT, Joseph Walser é daquelas personagens que não se esquecem. Joseph Walser talvez se esqueça de si, mas nós, tal como o encarregado Klober Muller, não nos esqueceremos dele.

 

Como nos podemos esquecer de alguém que tem a certeza que irá ser esquecido? Como nos podemos esquecer de alguém que sabe não deter qualquer ambição de reconhecimento público ou mesmo o reconhecimento íntimo da sua própria esposa? Como esquecer alguém tão pouco especial, tão esquecível, tal como a maior parte deste mundo de esquecidos do qual nós fazemos parte?

 

Magistral…

 

Após quatro livros d’O Reino, fiquei com a leve sensação que GMT o tem por seu Magnum Opus (não há um único livro mau nesta tetralogia de empatias obscuras), mas o Autor ainda é novo; logo, temo com agrado que coisas grandiosas advirão das suas penas carregadas de arte e imaginação.


Poder…

Bom, eu não sei se eu posso
Talvez tu também não possas
Mas sei que eles não podem
Enquanto nós aqui podermos…