CRÓNICA DE UM DIA ATAREFADO

O despertador tocou, a música chateando e as letras vermelhas piscando. Mais perro que as articulações dum velho ferrugento, arrastei-me para fora do ninho a custo. Tudo me dizia para ficar deitado menos a mãe que ainda me abre os cortinados.

Meio minuto depois, purga urinária matinal… ahhhh! e ablações normais: cara lavada à pressa com medo da água fria, desodorizante a queimar as axilas e o perfume a tentar afastar este cheiro ensonado que se ganha à noite e se vai perdendo até ao pequeno-almoço.

Apressando, o bolo da manhã embebido no café, o primeiro café do dia, tudo engolido sem grandes mastigares. Vai digestão!!! Tudo de empurrão!!!

Acelerando um poucochinho, o carro sai de marcha-atrás enquanto o cinto se prende e os óculos de sol se ajeitam na cana do nariz. O sol ainda se espreguiça a leste, mas que ninguém repare nestas olheiras cheias de vontades de não seguir em frente e de não apanhar este trânsito doido até ao trabalho. Todavia, o pior são estes ouvidos incapazes de se esquivarem a todas as buzinadelas matutinas. Mas que merda! Quem são os doidos que acordam com vontade de começar a refilar logo de manhã?!?!?

Chegado ao martírio, vejo que o escritório passou uma noite fria e  parece agora querer vingar-se em cima destes meus ossos que demoram a aquecer. E sim, o trabalho não me aquece, só me arrefece. Quem diz o contrário é porque não aprecia estar quieto, a gozar férias e a pensar que é tão bom não fazer a ponta dum…

E sabem? Os minutos até nem se esquecem de passar, mas o molhe de papeis que se começam a acumular em cima da minha mesa acumulam-se em câmara lenta, em s-l-o-w m-o-t-i-o-n… Mas donde será que vêm tantos papeis? Agarra-se numa folha, lê-se outra, torna-se atrás e, de repente, temos mais de mil páginas à frente ameaçando cegar-nos as vistas com tantas linhas escuras baralhando aquilo que já foi branco e da cor da neve. Às vezes, a vida de uma pessoa resume-se a linhas e mais linhas que se vão infinitando para lado nenhum.

Mas voltemos ao meu dia!

Para quem trabalha e não fuma, esqueçam a hora da bucha. Só nos resta contar até à hora do almoço… E como passa esta hora mais rapidamente que todas as outras. Minutos se passam até o prato do dia estar pronto, demora ainda mais um pouco a sobremesa, bebe-se o café e depois duma espreguiçadela lá está o ponteiro das duas da tarde a anunciar o tudo o que o mundo tem de mau: trabalhar sem nos deitarmos à sesta.

Por esta altura já se vai no segundo café, mas há sempre tempo para mais um ou dois quando se vai para fora do escritório. E agora? Os olhos muito abertos, não querendo pensar sequer em parar. No entanto, a lei manda: no tribunal os advogados só se levantam para alegações, o resto do tempo têm que estar sentadinhos a assistir aos alegadamente ladrãozecos, traficantes e demais putanheiros que só tiveram azar uma vez na vida: ser apanhados. Coitadinhos…

O ponteiro das rotações arranca-se e até se arronca se for preciso. Sempre a assapar pela autoestrada até ao escritório (fodam-se as coimas e as multas) tentando impedir que este sol que se vesperta caia de vez antes de eu terminar o dia.

Mas que diabos! Porque continua a minha secretária para ali cheia de trabalho?

E agora? E agora? E agora?

Esqueçam as seis, as sete e as oito.

Com sorte, sai-se às nove, nove mais cinco, nove mais dez…

Tudo para além disso é tão cruel que por breves segundos penso: mais valia ter-me alistado como paraquedista e ter pedido que me largassem no meio de uma zona de guerra. Que são tripas a voar, balas a zunir e gritos assustados comparado com o facto de termos de aguentar para lá das nove no escritório? Foda-se tudo e mais um pouco; trabalhar nem para quem gosta…

O que se gosta mesmo é quando se regressa finalmente a casa com um único desejo pulsando: purga total! Há finalmente tempo para cagar, tomar banho e, oh glória, uns cinco minutos para os cotonetes limparem a merda que ouvimos incessantemente durante o dia todo… Mais, alguma vez pensaram que toda a estupidez que ouvimos todos os dias, a toda a hora, vinda de todos os lugares possíveis e imaginários, pode ter efeitos nocivos? Quem nos garante que tantas baboseiras não nos envenenam aos poucos e poucos até por fim acabarem connosco? Limpem bem os ouvidos, meus amigos…

Por fim, uma ceia ligeira e, esperemos, um sono tranquilo.

Amanhã há mais, mas esperemos menos.

 

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Cai lá fora…

Cai lá fora, molhada,
E, não caindo calada,
Cai, pinga a pinga,
Fria e um pouco gelada.

Cai no chão, no corrimão
Da varanda e batendo
Nos vidros das janelas
Se vai a nuvem escorrendo,

Se vai o calor esmorecendo
E se vai o Verão dizendo:
Cuidado que aí vem descendo,
Aí vem o Inverno chovendo!

 

 


A Torre Negra

A Torre Negra

A Torra Negra- Livro 7

De Stephen King

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by Bertrand

A demanda pela Torre Negra terminou. Terá terminado como eu esperava ou gostava que terminasse? Acho que não. Acho que, tal como Roland diz, quando nos acercamos do nosso objectivo há sempre uma última onda que nos tenta afastar da margem; só que o problema foi mesmo esse. Não houve uma onda que sentíssemos verdadeiramente a tentar empurrar o Pistoleiro para longe da torre…

Quanto a vilões, a lista neste livro é interminável: Sayre, Dandelo, os taheens… tudo prontamente esquecível. A morte do Feiticeiro Negro, aquela que mais aguardávamos desde que o sacana deixara a porta entreaberta do quarto da mãe de Roland, foi a que mais desiludiu. Mordred, que até começou bem, revelou-se um fiasco tremendo, morto com uns poucos tiros e levando a coisinha mais fofa do mundo com ele. Finalmente, o Rei Rubro que de infernal nada teve no final. Tudo confrontos olvidáveis. A meu ver, o único vilão de jeito, foi mesmo o asqueroso Pimli Prentiss, cuja pontaria nos levou um membro muito querido quando já não estávamos à espera que tal acontecesse. A sério, um capítulo final a meu ver não deve ser apressado, mas, porra, tentar juntar todos os vilões no último capítulo não podia dar bom resultado…

Quanto ao ritmo da narrativa, o mesmo não se adequa de todo a um final; é completamente anticlimático. Roland torna a voltar ao nosso mundo para, mais uma vez, salvar King da merda de um atropelamento (que aconteceu mesmo), voltamos a uma viagem sem propósito à Tet-Corporation e aquela interminável parte das Terras Brancas… bem, digamos que me gelou a paciência. Depois ainda veio Patrick Danville no fim, um personagem em si bom, mas completamente deslocado da história… apenas e tão só para derrotar o vilão que todos esperavam que fosse o Pistoleiro, com uma única bala, a derrotar. Seria pedir muito?

E quando ao final da história de Susannah Dean? Não podia ter terminado de forma tão chocha um personagem tão interessante. Estou quase a chegar à Torre com Roland, mas talvez seja melhor não. “É melhor voltar parta trás depois de ter chegado tão longe…”

Adiante, a Torre Negra, o último capítulo da demanda do Pistoleiro. O que havia no seu interior e no último piso? Tudo? Nada? Um ponto de chegada que será apenas uma nova partida? Foi bem conseguida essa parte, mas podia ter sido muito melhor se o Autor tivesse despejado melhor a sua arte nos três últimos livros da história (especialmente deste último).

 

***

Olhando para o conjunto da obra, não posso deixar de apontar algo que gostaria de ter visto e que não aconteceu de todo assim que o Ka-tet chegou a Calla Bryn Sturgis:

No quinto livro, após a Batalha de Callas, Roland e o ka-tet deviam ter ido imediatamente até Algul Siento e acabado o trabalho; poupando muito tempo do último capítulo. Teria muito mais força Mia ganhar o controlo do corpo de Susannah se esta tivesse ai visto a morte que lá ocorreu…

N’A Canção de Susannah, porque não ter logo inserido a tão desejada batalhada entre Roland e Walter que nunca chegou a acontecer? Será que havia melhor agente do Rei Rubro para tentar acabar com a vida a Stephen King? Porque não colocar Roland frente a frente com o homem que lhe papou a mãe, foi o responsável pela ruína da sua casa, lhe matou o melhor amigo e o molestou durante tanto tempo?

Dandelo, Mordred e o Rei Rubro no último livro podiam ter sido tão, mas tão melhor usados; um para cada membro do ka-tet. Porque não começar por colocar o ka-tet a enfrentar uma criatura como o Dandelo logo no início da história e Susannah o puto-aranha? Se tivesse ido bem mais longe do que foi no quinto livro, haveria muito por onde escolher, mas não…

Porque não permitir que Dandelo apagasse mais um membro do grupo logo no início e não dar a Jake uma morte como a que deram? Atropelado? Por amor de Gan!!!

Porque não permitir a um membro do ka-tet alcançar a torre na companhia de Roland?

Porque não colocar Roland numa mesma situação idêntica ao do primeiro livro? Numa situação em que tivesse de escolher sobre a sua torre e um dos seus companheiros? Roland evoluiu ou não? Provavelmente, não e tal seria o perfeito fechar do círculo, algo que se pretende sempre… e depois sim podia vir o twist final.

É que assim, fosse a escolha de Roland qual fosse, tudo daria um sentido ainda mais forte à definição final da história. Voltaria atrás com um propósito melhor ainda, maior ainda… tudo faria mais sentido. Assim é um final que, não sendo mau, deixa muito a desejar.

***

E pronto, fiquei tão desiludido com o final da história que não pretendo voltar a ela tão depressa. Empurrei a A Lenda do Vento para a pilha dos livros que vou ler daqui a uns anos.


A Canção de Susannah

A Canção de Susannah

A Torre Negra – Livro 6

De Stephen King

A-Cancao-de-Susannah.jpg

by Bertrand

Finalmente, depois do sensaborão quinto livro da saga, temos um livro que nos volta a encher de vontade de virar páginas até ao seu término. Claro que não é tão bom como o primeiro livro, mas é tão bom como a segunda obra da série. Ou seja, é muito bom.

Depois do sucesso do confronto com os robóticos lobos, Mia apodera-se do corpo de Susannah e atravessa uma porta para um certo ano de 1999 de Nova Iorque, roubando a Treze Negra e dificultando a travessia de mundos. Contudo, claro está, o ka-tet, encontra uma possibilidade de atravessar os mundos dentro da impossibilidade que ao princípio surge na desesperada alma de Eddie Dean. Sucede que quando o grupo, agora com a companhia do padre Callahan, atravessa a porta se divide: Eddie e Roland para o quando de Calvin Tower e Jake, Oi e Callahan para o quando de 1999.

Certas divisões podem, por vezes, quebrar e desacelerar o ritmo de uma obra. Todavia, não é este o caso. Mia e Susannah e Detta formam um trio de personagens no mesmo corpo, pormenor delicioso, que aprofunda alguma da história do Rei Rubro, suas intenções, e o objectivo do filho demoníaco de Mia e Susannah. Roland e Eddie põe finalmente um ponto final naquela história burocrática, e secante, da compra e venda do terreno onde existe a rosa e depois vão ao encontro de um escritor que só por acaso se chama Stephen King e está à procura de ideias para continuar A Torre Negra. Por fim, temos Oi e Don Callahan liderados por Jake à procura de Susannah.

Claro que o livro mais difícil de escrever para o Autor talvez tenha sido este. Uma coisa é o final da história, às vezes pensada há muito tempo, outras nem tanto; e outra coisa é o livro que prepara esse final. Mas mesmo sendo difícil, lá o Autor trouxe à história um suculento e interessante livro que me deixa ansioso pelo capítulo final da saga.

Talvez aproveite para ler A Lenda do Vento, o livro 4.5 dos sete livros que inicialmente compunham a série, enquanto espero que a Bertrand se lembre de publicar o último livro desta obra; até porque a mesma já veio dizer que o livro final está na forja para este ano. Quero acreditar que lá para Agosto, no máximo, devo voltar a esta série para um final que espero digno.


O que está por trás da Catalunha livre?

Enquanto português, tenho alguma dificuldade em perceber os movimentos independentistas mais recentes dos nossos vizinhos. Custa-me perceber um povo (leia-se as suas massas…) que clamam por “Liberdade!” quando algo tão imaginário como fronteiras terrestres nunca impediu a liberdade de identidade de ninguém.

Algo curioso, e preocupado em entender o que não entendo, fui procurar os argumentos que sustentam então a referida Declaração de Independência da Catalunha:

  1. A Catalunha foi ocupada por Espanha!
  2. A Catalunha é explorada pelo governo de Espanha porque contribui mais em termos fiscais que as restantes regiões de Espanha!
  3. A Catalunha tem língua própria!

Ora, vejamos, quanto à ocupação espanhola da Catalunha, a Netipédia e os outros livros de História dizem que o Rei Fernando II de Aragão se casou, pacificamente, com a Rainha Isabel I de Castela. Deste casamento, para além da normal união das famílias, uniram-se territórios, povos e recursos. Falar em ocupação parece-me algo excessivo, não? Portugal foi ocupado por forças militares de Filipe II (I em Portugal), a Catalunha unificou-se a Espanha por vontade dos seus soberanos. Claro que depois houve egos, conflitos e zaragatas, mas isso não acontece em todas as ruas onde há vizinhos?

Quanto à exploração económica de Espanha, eu questiono: uma região mais rica não deve ajudar as outras mais pobres? Em vez de exploração que tal solidariedade? Só mesmo os ricos, e pobres de espírito, para não quererem ajudar os malsofridos… Será que o mundo deve ser assim tão egoísta? E não venham cá com conversas que sustentam os ciganos andaluzes, os pobres de Toledo ou os terroristas bascos… A Alemanha e os países nórdicos também dizem que sustentaram os PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) durante a crise das dívidas soberanas e, como bem se sabe por cá, empréstimos não gratuitos não ajudaram ninguém. O que ajudou foi o trabalho das pessoas que com muito custo pagaram os seus impostos…

Por fim, a língua catalã. Será que algo tão bonito como uma língua (uma ferramenta ancestral de comunicação) deve ser tratado tão futilmente como arma de arremesso? Será o maior sinal de independência um povo ter a sua língua própria? Então o que farão os catalães se a Comarca do Vale de Aran, pertencente à Catalunha, disser que também quer a independência porque fala Aranês? Será que lha dão?

Sinceramente, desconfio que algo mais ande por trás destes indivíduos oportunistas que apenas desejam mais poder e dos paspalhos cheios de liberdades que apenas querem motivos para sair à rua para atacar polícias e clamar pela liberdade que, perdoem-me, não lhes falta desde que Franco morreu.

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De que adianta a luz do Sol?

De que adianta a luz do Sol
Se sem ti, e nesta escuridão,
Não vejo luzir nada de nada?

De que adianta o girar do Sol
Se sem ti, e nesta inexatidão,
Esta vida parece deseixada?

De que adianta o calor do Sol
Se sem ti, e nesta solidão,
Só sinto a minha pele gelada?

De que adianta o pôr-do-sol
Se sem ti, e nesta sofridão,
Nenhuma noite fica estrelada?

De que adianta o nascer do Sol
Se sem ti, e nesta ingratidão,
Não tenho tua boca apaixonada?


Hemisfério errado…

Não me deste um fora
Mas, maldita a hora,
Só tu para ires embora
E deixares-me por agora.

Que faço aqui? Espero,
Fico calmo ou desespero?
Sem ti o mundo é áspero
E não dá, não te supero!

Que és sem meu braço dado,
Sem meu abraço apertado
E sem meu beijo tarado?
Alguém no hemisfério errado!