Daily Archives: Julho 3, 2017

Roseira Brava

Uma roseira brava, outrora cheia de espinhos, viçosos e aguçados,foi ficando uma rosa amestrada, complacente com a tesoura que lhe podava o carácter e a alma; tudo porque queria de si mesma apenas o perfume aveludado das suas pétalas vermelhas.

Como uma desconhecida que se desconhece a si mesma, foi-se desapegando das raízes como se o leite que o ventre da mãe-terra lhe deu não fosse a seiva que lhe empurrou o verdíneo caule para cima, para crescer, ainda que torto.

Sempre a troco do melhor lugar ao sol, foi ignorando a roseira a falta de espinhos e o cair das suas próprias folhas, o cair das unhas e dos pulmões, até que em vez da elegante tesoura de podar veio a última serra findando assim a sua pobre história.

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BARROCO TROPICAL

Barroco Tropical
de José Eduardo Agualusa

 

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by Dom Quixote

Já tinha lido um outro livro deste autor angolano, A Vida no Céu, e tinha gostado da escrita leve, cómica e com aquele toque de português dos trópicos. Foi isso que me motivou a ler este último Barroco Tropical.

Mas, ao invés da magia e fantasia que encontrei no primeiro, encontrei neste livro uma crua perspectiva daquilo que é e será a futura Luanda… e alguma desilusão.

O livro até tem grandes oxímoros, grande frases, grandes imagens e grandes momentos de reflexão, mas falta-lhe algo que eu aprecio: um fio condutor nítido. A mulher que caiu do céu e o mistério por trás da sua queda não puxa em demasia pela história (O protagonista descobre o que aconteceu à mulher simplesmente porque sim e não porque andasse à procura de o descobrir…) e depois há a história do Anjo Negro. Ainda que reconheça importância desta demanda, em momento algum senti verdadeiramente o protagonista motivado a perseguir esse tal Anjo Negro; pelo que também este fio se quebrou em alguns momentos. No final, ficamos apenas com ideia que o Autor queria apenas um par de olhos a observar o que à sua volta se passava.

A existência de ganchos narrativos é escassa. Talvez o Autor não tenha querido obrigado os seus leitores a devorar o livro, talvez tenha apenas querido que estes lessem cada capítulo com calma e com a paciência que se exige a um sociólogo ao observar uma determinada parte da existência, como aquela que o Autor representa no livro.

O protagonista principal é um homem cheio de falhas, calcinado pela dor da perda e preso a um labirinto de culpa. Já quanto a Kianda, a protagonista feminina da estória, ainda que seja uma personagem tremendamente importante para o desenlace, não havia necessidade de lhe atribuir o papel de narradora. O seu elucidário foi algo que pouco acrescentou à estória e que por vezes quebrou o ritmo da narrativa. Acho que a sua perspectiva podia ter sido condensado de outra forma, talvez em dois capítulos (ou talvez não, não sei…)

Quanto a pontos fortes: Termiteira, Luanda e Angola. Tal como outros artistas angolanos deste tempo, há em Agualusa a necessidade de mostrar algo do seu país pobremente roubado pelas ricas elites, algo da ruína  humana que permanece nas ruas desde o fim da guerra e algo das antigas tradições perdidas, quer com o colonialismo da língua portuguesa quer com as orientações políticas do governo.

No final de contas, é um livro bom para quem quer conhecer um pouco da alma angolana, mas não é um daqueles livros que nos motive a virar a página e nos convide a devorar o próximo capítulo.